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domingo, 20 de dezembro de 2009

Avatar


Texto de Moacyr Scliar

O filme de James Cameron, um dos mais badalados da década que se encerra, veio dar maior visibilidade a uma palavra que, nos últimos tempos, virou um termo da moda: avatar. Na internet, são centenas de milhões de citações. Avatar dá título a uma série de desenhos animados da Nickelodeon, é o personagem central da série de games Ultima, designa um álbum da banda portuguesa Blasted Mechanism e é, enfim, qualquer representação gráfica de quem está jogando um game. O curioso é que estamos falando de uma palavra antiquíssima, que há milênios foi introduzida pelo hinduísmo.


Avatar vem do sânscrito, descida, e designa a chegada de uma divindade à Terra e seu aparecimento como um ser mortal. Não é bem a encarnação da teologia cristã, segundo a qual, em Jesus, Deus se fez carne; é mais uma manifestação, uma representação, do deus Vishnu. Diz o Bhagavad Gita, livro sagrado que data de dois séculos antes de Cristo, que o papel de um avatar de Vishnu é trazer o dharma, aquilo que é certo, que é justo, à ordem social e cósmica. São avatares de Vishnu, entre outros: Matsia, o peixe, Kurma, a tartaruga, Varaha, o javali.

A pergunta que se impõe é: por que a metáfora do avatar ganha, de repente, tanta projeção? Pode ser por várias razões. A primeira é pela sensação de desordem, de anomia, como dizem os sociólogos, que as pessoas veem na sociedade e no planeta como um todo: o crime, a corrupção, a guerra, o terrorismo, a doença, a pobreza, o aquecimento global. Coisas que exigem uma intervenção superior. A segunda razão é o avanço da tecnologia, da qual o filme de Cameron é um eloquente exemplo: filmes, hoje, são muito mais efeitos especiais do que o clássico resultado de artistas desempenhando um papel. Filme e videogame têm muito em comum; no videogame, através dos controles, transformamos uma figura imaginária numa projeção de nós mesmos - num avatar.

Agora: como no caso da tradição hindu, o avatar tem poderes especiais, e é isso que certamente nos atrai nesse gênero de diversão. Na ficção habitual, a identificação era feita através da imaginação. Líamos um livro e nos colocávamos no lugar do personagem. Como disse Flaubert a respeito de seu romance famoso: "Madame Bovary sou eu". Agora a técnica nos faz ir mais adiante, e a identificação adquire uma dimensão sensorial, mais intensa.

Como diversão, tudo bem. Mas será que isso é mesmo uma resposta para os nossos problemas? Será que não deveríamos procurar em nós mesmos a figura que realmente somos e com a qual deveríamos nos identificar, de modo a assumirmos plenamente a nossa personalidade? Essa é a pergunta que surge diante dessa nova conjuntura. Resta encontrar o avatar que vai respondê-la.

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