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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nunca mate uma abelha

Portugal é dos países menos atingidos, mas de 2004 a 2007 morreram 3,5 mil milhões de abelhas no País. A varroose é a culpada. Os espanhóis já arranjaram solução: fabricar 'superabelhas'

As abelhas estão a desaparecer. Nos últimos anos, um pouco por todo o mundo, milhões de colmeias têm sido dizimadas. O cenário é apocalíptico para os insectos, mas também para a humanidade. Como disse Albert Einstein: "Quando as abelhas desaparecerem da face da Terra, o homem tem apenas quatro anos de vida." Mas porque estão as abelhas a desaparecer? "A causa é ainda desconhecida, o que os investigadores sabem é que há vários factores que podem ter causado esta situação", explica o professor universitário e especialista nesta matéria Miguel Vilas Boas.

Apesar de as abelhas terem um inimigo sem rosto, há uma doença que os especialistas acreditaram ser responsável por várias mortes: a varroose. Considerada a "sida das abelhas", este vírus é provocado por um ácaro - a varroa - que "enfraquece as abelhas e torna-as susceptíveis a outras doenças".
Só no ano passado em Espanha desapareceram nove mil milhões de abelhas. Para combater este voo para a extinção, uma equipa de universitários de Córdoba decidiu criar aquilo a que chamaram "superabelhas" (ver infografia). Neste processo as rainhas são inseminadas e as abelhas nascem fortificadas, resistentes a ácaros.

Em Portugal a população de abelhas também tem vindo a diminuir, mas Vilas Boas acredita que "não houve nenhum surto mortífero como nos outros países". Tal é confirmado por João Casaca, da Federação Nacional de Apicultores (FNAP). "Em todo o País, foi-nos comunicados apenas uma situação de um apicultor que viu as suas colmeias completamente dizimadas."

Mas a varroose também preocupa os apicultores nacionais. Tendo em conta o boletim do Ministério da Agricultura, só entre 2004 e 2007 houve uma quebra de 3, 5 mil milhões de abelhas. O número impressiona, mas é amenizado por especialistas que garantem que o número de apicultores também reduziu significativamente. Ora, "menos apicultores, menos abelhas".

Ainda assim, a varroose está presente em Portugal. E os apicultores têm noção do perigo, pois é a doença que destrói mais colmeias no País. Aliás, consciente desta situação, o Ministério da Agricultura chegou a distribuir gratuitamente produtos para travar o flagelo. Agora, já não são doados, mas continuam a ser comparticipados. É talvez por isso, que o combate à varroose em Portugal se centre num único método. "O uso de acaricidas", esclarece João Casaca, que garante que por cá não se criam "superabelhas" como em Espanha. Tal também não está previsto num futuro próximo. Isto porque, como explica Vilas Boas "ninguém está a utilizar a inseminação, o único programa que existe é de selecção das rainhas. Nada mais."

Em Portugal, os números também não são tão catastróficos. "É um processo que tem custos, mas está controlado", explica Vilas Boas. Além disso, o País tem a "bênção" de ter uma das poucas regiões do mundo onde a varroose não existe, como é o caso de algumas ilhas dos Açores.

Apocalipse a preto e amarelo

O perigo de extinção das abelhas é real. Nos EUA, a segunda potência da apicultura a seguir à China, mais de 60% das populações de abelhas desapareceram em 24 estados. A crise é tal que o Congresso teve de aprovar um plano de emergência, como faz em tempo de guerra ou de crise económica. Aliás, sob o pretexto económico, a secretária da Agricultura norte-americana lembrou que "sem abelhas deixa de existir Coca-Cola". Como quem diz: senhores do capital mexam-se, que a coisa é séria.

Os números na Europa não são mais animadores. Segundo o diário espanhol El Mundo, em Itália, Bélgica e Alemanha metade das abelhas desapareceram. A varroose não será o único problema e Vilas Boas acredita mesmo que "quando descobrirem a causa real, ela vai variar de país para país". João Casaca lembra algumas das potenciais causas em diferentes países: "Na Alemanha tem a ver com o cultivo de sementes, em França pensa-se que seja a utilização de pesticidas nas culturas e em Espanha será a sobreprodução. Há apicultores a mais."

Certo é que estes polinizadores continuam a desaparecer. E como seria o mundo sem abelhas?. "Era uma catástrofe", alerta Miguel Vilas Boas. "Todo o ecossistema seria alterado e Einstein, provavelmente, teria razão. Seria uma crise muito pior que a económica porque nós [humanidade] ficaríamos sem comida." É por este cenário que muitos especialistas chegam a evocar o hino do Reino Unido. God Save the Queen. Em português, Deus Salve a Rainha. A rainha das abelhas, entenda-se.

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Alimentos pouco recomendáveis

Vinho em pó, queijos sem leite, produtos biológicos com componentes geneticamente
manipulados, frangos apátridas, laranjada sem laranja, entre outros: os nossos carrinhos de supermercado estão cheios de produtos que não têm muito a ver com que os rótulos anunciam. Em causa, as denominações impostas pela União, sob pressão dos grupos agro-alimentares.

O perigoso monstro é uma caixa quadrada em cartão plastificado, ornada de um magnífico pôr-do-sol. Foi baptizado “wine kit” [conjunto para vinho] e permite fabricar vinho em casa com cinco saquinhos de pós de perlimpimpim, nomeadamente concentrado de uva liofilizado, bentonite, dissulfito e sorbato de potássio, agentes fixadores sem qualquer identificação mais precisa. Requer vinte dias de elaboração, um processo complexo que exige tempo e um controlo preciso dos níveis de humidade e de temperatura. Se todas as condições forem cumpridas obtêm-se trinta garrafas do néctar de Baco, por quarenta euros mais portes de correio.

O pacote contém também “elegantes rótulos” que certificam que os recipientes de vidro contêm “barolo” [designação de origem de vinho produzido na região vinícola do Piemonte, Itália]. Barolo, mas em pó. Um nome sem nenhuma relação com as suas origens, ao ponto de poder-se mesmo “degustar” barolo branco.

Luca Zaia, o ministro [italiano] da Agricultura, arrumou-o muito apropriadamente naquilo a que chama “a galeria dos horrores”: um monte de “trafulhices” declaradas conformes às normas europeias e que desafiam a paciência do consumidor italiano. A Coldiretti [poderosa federação de empresas agrícolas] improvisou uma mini-exposição destes “monstros” num grande hotel de Bruxelas: queijos sem leite, produtos de agricultura biológica contaminados com OGM, frangos apátridas, laranjada sem laranja… “Todas as coisas que se encontram, sem darmos por isso, no cesto da dona de casa”, argumenta Sergio Marini, presidente da organização de agricultores. “As grandes superfícies angariam lucros jogando com a ambiguidade da informação.”

No Tribunal Europeu, essa grande copropriedade onde os intervenientes são cada vez mais numerosos, a tendência atual – fazer passar os interesses nacionais à frente dos interesses europeus – parece não ter limites. Vinho sem uva? Na Alemanha e noutros países do norte, há vários anos que se vindimam maçãs, framboesas e groselhas pretas. Nos seus mercados internos, chamam-lhe “vinho” e bateram-se para continuar a produzi-lo e até vendê-lo no estrangeiro. A Itália opôs-se, mas teve depois de resignar-se inapelavelmente ao voto maioritário que, sobre numerosas questões agrícolas, se produz por uma maioria milimétrica, de 14 (Estados da Europa do Norte e do Leste) contra 13 (países mediterrânicos e seus vizinhos). Permanece a esperança de que os consumidores identifiquem os rótulos e não se deixem confundir. A Coldiretti e o ministro não parecem convencidos disso.

No Conselho da Europa de Bruxelas são os lobbys mais fortes que levam a melhor: Alemanha, França, Escandinávia. Quase nunca é a Itália, que tem uma agricultura bastante melhor, tanto pela sua qualidade como pelas suas tradições e níveis de preços. Berlim defende com unhas e dentes as suas grandes criações e as suas imensas superfícies agrícolas. Os nossos agricultores dispõem de superfícies reduzidas e a cultura dos direitos, na Europa, é ainda uma ciência jovem, ainda presa à maldição que, na década de 1980, levou o Governo a fazer o mau negócio das quotas leiteiras em troca de apoios à siderurgia. Viu-se o resultado.

Marini quer que não se dêem tréguas a Bruxelas, para nos protegermos de ciladas. Como, por exemplo, as que se escondem por trás da abolição dos padrões e calibres mínimos para fruta e legumes, sob pena de termos no mercado produtos de refugo a preços incontroláveis. Ou ainda contra a autorização, em vigor desde Janeiro, de acrescentar até 10% de caseína no fabrico de queijos. E tem toda a razão. Mas isto não deve fazer esquecer o que a Europa fez pela nossa economia verde, a começar pela proteção das denominações controladas. No dia 1 de Julho próximo, vai chegar a classificação D.O.C para o azeite de qualidade de origens geográficas protegidas. Para os produtores, é uma vitória. A União Europeia, como todas as copropriedades, mostra ora o verso ora o reverso da medalha.

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