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terça-feira, 10 de março de 2009

O impacto de Calvino em Genebra e além

A celebração do quinto centenário do nascimento de João Calvino é uma ocasião propícia para rememorar a profunda influência que o reformador exerceu na Genebra de seu tempo.
E também para reconhecer a repercussão que seus escritos e propostas teológicas tiveram em outros rincões da Suíça e, com o tempo, mundo afora.






Legenda da foto: A catedral protestante de São Pedro, em Genebra, fotografada ao estardecer. (Keystone)

Calvino era francês e sua vinda a Genebra em 1536, aos 27anos de idade, foi fruto de um acaso. Imbuído das ideias humanistas da Renascença e simpatizante das posições anti-papistas do frade alemão Martinho Lutero, ele era mal-visto na França católica do rei Francisco 1°.

Sua primeira vinda à Suíça, em 1535, foi a Basileia, cidade que já aderira à reforma protestante sob a influência de João Ecolampádio e Oswaldo Micônio. Calvino aí permaneceu durante cerca de um ano e aí escreveu a primeira versão, em latim, de sua Instituição da Religião Cristã, obra que se tornaria a referência teológica maior das igrejas reformadas "Calvinistas" no mundo inteiro.

28 anos em Genebra

De volta à França, no curso de uma prolongada viagem em direção de Estrasburgo (que desde 1529 também abraçara as ideias de Lutero), Calvino teve de pernoitar em Genebra, onde Guilherme Farel vinha lutando há algum tempo para implantar a reforma. Quando soube da presença de Calvino na cidade, foi logo vê-lo e, à força de argumentos de toda sorte, conseguiu convencê-lo de ficar aí algum tempo a fim de ajudá-lo a consolidar a obra iniciada por Farel.

O "algum tempo" se prolongou e, salvo uma interrupção de dois anos e meio (quando foi banido da cidade pelo Conselho que o acusava de ingerência da igreja na esfera civil), Calvino passou o resto de sua vida, 28 anos, em Genebra. Tempo suficiente para aplicar na igreja e na sociedade seu ambicioso projeto de Reforma.

Com o apoio das autoridades civis, Calvino usou de sua liberdade de ação para reestruturar a igreja agora desvencilhada das amarras de Roma, promover a pregação do Evangelho exclusivamente segundo os ensinos da Bíblia, estabelecer novas diretrizes litúrgicas e sacramentais (só dois sacramentos: batismo e Santa Ceia) e capacitar os pastores (vários deles ex-padres) para sua nova missão. Formulou também normas de disciplina ética, de dedicação ao trabalho, senso de responsabilidade e austeridade de vida a serem aplicadas aos fiéis em geral a fim de coibir o que ele considerava certas tendências "libertinas" na sociedade.

Disciplina mas não despotismo

No que diz respeito a essa disciplina Calvinista, de rigor não raro excessivo, ela era ressentida por alguns como atentatória à liberdade cidadã.

A noção, porém, de que Calvino exercia um poder despótico ou que pretendia criar em Genebra uma teocracia protestante, é simplesmente caricatural. Esquece-se que um dos pilares de sua teologia era a Sola gratia, ou seja, é unicamente pela generosa misericórdia de Deus que somos salvos e não por qualquer desempenho ético de nossa parte.

Já o caso do teólogo Serveto, acusado de heresia e condenado à pena capital pelo Conselho da cidade, é mais ambíguo. Calvino omitiu-se de intervir, como poderia, para evitar a aplicação da pena. Seria uma prova de conivência do reformador com a intolerância doutrinária própria do seu tempo? Muito tempo depois, em 1903, os herdeiros genebrinos do reformador fizeram ato de penitência por essa omissão com uma estrela no local da execução de Serveto.

Por outro lado, essa disciplina Calvinista explica em boa parte a prosperidade econômica que a Reforma trouxe a Genebra. Não é por acaso que certos estudiosos, Max Weber e outros, vêem no Calvinismo o germe do capitalismo moderno.

Pólo de irradiação

De qualquer modo, com Calvino a Reforma triunfou em Genebra e permeou a sociedade a ponto de a cidade tornar-se um pólo de irradiação do Calvinismo às cidades vizinhas e muito além. A ela afluíram refugiados franceses huguenotes em grande número, mormente com a revogação do Edito de Nantes em 1685. A "Roma protestante" tinha agora gravadas em seu emblema as palavras ostensivas Post tenebras, lux (Depois das trevas, luz).

Mas, para o humanista Calvino a Reforma não era apenas um programa eclesiástico. Ela almejava transformar a sociedade. A Academia que ele contribuiu a criar em Genebra, e da qual o primeiro reitor foi Teodoro de Beza, amigo fiel de Calvino, não visava somente a preparar jovens para o ministério da Igreja. Era também para formar uma elite esclarecida e apta para "a governança civil" e, como tal, serviu de modelo para instituições análogas em outras cidades européias.

Essa Academia tornou-se, na realidade, o núcleo da hoje prestigiosa Universidade de Genebra. O Hospital Geral de que se dotou a cidade em seu tempo atendia os menos favorecidos da sociedade e demandava a generosidade e solidariedade social dos crentes em geral. Muitos atribuem a criação da Cruz Vermelha Internacional de hoje, sediada em Genebra, à influência moral do Calvinismo.

Obra em 60 volumes

Mesmo enfermo nos últimos anos de sua vida, Calvino continuou ocupado em escrever (sua produção literária é imensa e uma recente edição de suas Obras Gerais conta nada menos de 60 volumes), em pregar o Evangelho (em regra, várias vezes por semana), em ensinar teologia e Bíblia na Academia e, muito importante, a manter a assídua correspondência com outros promotores da Reforma no país e no estrangeiro a fim de confortá-los e orientá-los na sua árdua e nobre tarefa.

Foi por correspondência que redigiu a Confissão de Fé adotada pela Igreja Reformada da França, seu país natal. Pouco afeito a honras e a privilégios, Calvino morreu sem grande alarde em 1564, aos 55 anos, e foi enterrado em sepultura sem lápide e de localização hoje incerta.

Meio milênio passado, a marca da influência de Calvino e do Calvinismo permanece viva e atuante. E isso apesar do inelutável processo de desgaste religioso por que passam todas as sociedades de nosso tempo.

Genebra, por exemplo, é hoje uma metrópole secularizada, mundana, mais conhecida pelas suas instituições financeiras e órgãos internacionais do que pela piedade cristã de seus cidadãos.

Movimentos migratórios recentes fizeram com que mais da metade da sua população é católica. E a participação dos fiéis protestantes aos cultos dominicais declina a olhos vistos.

Não obstante, para lembrar e afirmar as raízes Calvinistas da cidade, aí estão localizados o imponente Muro da Reforma, o Museu Internacional da Reforma; o emblema da cidade proclama ainda o sempiterno Post tenebras lux, e os membros do Conselho da cidade continuam a prestar seu juramento de posse na Catedral "de Calvino". E não é por nada que o Conselho Mundial de Igrejas, cuja criação deve muito a vultos do protestantismo reformado (ou presbiteriano), tem sua sede em Genebra.

No plano internacional, as igrejas que se reclamam da herança de Calvino se estendem hoje desde a América do Norte até a Coreia do Sul, e desde a Holanda até a África do Sul. Só no Brasil há pelo menos cinco denominações reformadas (presbiterianas) com um total de mais de um milhão de adeptos. E uma das mais prestigiosas instituições de ensino superior no país, a Universidade Mackenzie, tem origem no presbiterianismo norte-americano.

75 milhões de herdeiros

A Aliança Reformada Mundial, sediada em Genebra, representa 75 milhões de cristãos que se reconhecem herdeiros de Calvino, dispersos em 107 países. Em termos de amplitude de expansão do protestantismo originário da reforma do séc.16 no mundo, só a Igreja Luterana se compara com a Igreja que se inspirou na obra de Calvino.

Poucas são as figuras na história da igreja que exerceram o impacto profundo e duradouro de João Calvino. A celebração do quinto centenário de seu nascimento é pois uma homenagem mais que merecida ao homem de têmpera, mas também abnegado, que desencadeou, de Genebra, a dinâmica de um processo de reafirmação da livre graça de Deus a toda humanidade e de desafio a viver perante esse Deus com sincera gratidão e agudo senso de responsabilidade humana.

*Pastor e teólogo, ex-diretor do Programa de Formação Teológica do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra.

Fonte

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Suiça - Advogado de Paula O. diz que confissão de farsa não é válida

Para o advogado Roger Müller, indicado pelo Procuradoria Geral de Zurique para defender a brasileira Paula O., a confissão feita à polícia não tem validade. Ele também acha pouco provável que ela tenha simulado o ataque para obter indenizações por danos morais.

A estação de trem de Stettbach, onde Paula O. afirmou inicialmente ter sido atacada por skinheads.
Legenda da foto: A estação de trem de Stettbach, onde Paula O. afirmou inicialmente ter sido atacada por skinheads. (Keystone)



Autoridades diplomáticas brasileiras confirmam a presença da consulesa durante o interrogatório de 13 de fevereiro. Ministério Público cogita três saídas possíveis.

A reportagem publicada na semana passada pelo semanário "Weltwoche" elucidou parte dos mistérios relacionados ao caso da advogada brasileira Paula O., como admitiu há poucos dias a Procuradoria Geral de Zurique. Porém a história é mais complexa do que parece.

Como confirmam representantes do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a cônsul-geral Victoria Cleaver esteve presente no interrogatório da manhã de 13 de fevereiro, onde Paula O. teria assinado uma confissão. "Ela esteve não apenas presente nesse dia, como em todos os outros nos quais havia sido convidada pela família da brasileira para prestar-lhes assistência", confirma conselheira Marisa Baranski.

O Consulado do Brasil em Zurique limita-se agora ao trabalho de acompanhamento. "Trata-se de um caso policial. Só iremos observar para que nenhuma injustiça seja cometida", afirma a diplomata.

Roger Müller é o advogado escolhido pela Procuradoria Geral de Zurique para defender Paula O. Fluente em português, ele é especializado em questões ligadas aos dois países e já está em contato próximo com a brasileira. Sem entrar em detalhes ao falar da estratégia de defesa, Müller explicou à swissinfo, por telefone, nesta quarta-feira (25), que considera inválida a confissão feita por Paula O. Justificativa: um advogado não estava presente no momento. Na entrevista, ele explica porque considera pouco provável a hipótese levantada pela "Weltwoche" de interesses pecuniários por trás dos atos da brasileira (ouça os áudios na coluna à direita).

Swissinfo: Como o Sr. foi escolhido para defender Paula O. nesse caso?

Roger Müller: Existe um departamento do Tribunal do Distrito de Zurique que se chama "Escritório para mandatos públicos". Ele é que escolhe normalmente um advogado em casos onde o nosso Código de Processo Penal prevê que um acusado ou, em certos casos até uma vítima, tem de ser representado por um advogado. Esse departamento é chefiado pelo vice-presidente do tribunal, o Dr. Max Hauri, que me ligou para dizer que precisava de um advogado que falasse português e conhecesse a cultura brasileira, para poder se comunicar com a cliente, os familiares e também com o Consulado do Brasil. Ele perguntou se eu queria assumir a causa.

E o Sr. aceitou?

Sim. Eles me contrataram, pois conhecem o meu perfil. Eles sabem que eu tenho um escritório de advocacia especializada em assuntos suíços e brasileiros.

Paula O. e sua família aceitaram que Sr. os representassem?

Sim. Estamos tendo um bom relacionamento.

Qual é o atual estado de saúde de Paula O.?

Ela ainda está emocionalmente muito abalada, mas seu estado de saúde melhorou.

Ela já soube da repercussão do caso?

Ela não está a par de todas as notícias, mas de uma parte sim.

Paula O. já foi interrogada?

Pela polícia sim, mas não pela Procuradoria Geral de Zurique.

A revista semanal "Weltwoche" publicou há poucos dias informações sobre sua confissão. Ela já teria sido feita?

O que foi dito ocorreu durante um depoimento prestado diante da polícia e não do promotor do Ministério Público. E como o advogado estava ausente, ele não tem valor de prova.

Isso significa que a confissão não poderia ser utilizada no processo?

Não. Daqui para frente só pode ser utilizado no processo o que será dito ao promotor do Ministério Público. Se ela confessou ou não, isso ainda não tem nenhum significado para o que está para acontecer.

Mas a reportagem do "Weltwoche" indicou que ela até chegou a assinar protocolos da confissão na presença dos agentes de polícia. Esses documentos não poderiam ser utilizados no processo?

Se ela não confirmar na presença do Ministério Público, também não.

Então ela pode posteriormente negar tudo que disse aos policiais frente ao promotor?

Correto!

E o que o Sr. indicou a ela para fazer? Negar?

É claro que eu não posso responder a essa pergunta sobre o conteúdo da nossa defesa por sigilo profissional.

Pessoalmente ela fez uma confissão sobre seus atos ou admitiu algum erro?

Também não posso aprofundar-me sobre esse tema, pois não quero antecipar o interrogatório com o Ministério Público.

Como será a estratégia de defesa de Paula O.?

Estamos avaliando as três opções que temos, mas não quero antecipar nada, pois não houve um interrogatório no Ministério Público. Para nós ainda é muito cedo. Para a imprensa parece que o caso está quase terminado, mas não é nada disso. Ainda estamos muito no principio das investigações.

Uma das opções é o lúpus, a doença que seria sofrida pela advogada brasileira, não?

Como eu disse, essa é uma das opções. Mas eu tenho de me aprofundar nela, pois sou um jurista e não médico.

Já existe uma data marcada para o interrogatório do promotor Marcel Frei?

Deve ocorrer nos próximos dias, possivelmente ainda nessa semana.

Ela está em condições de saúde de prestar todas as informações em um interrogatório?

Sim. Ela está emocionalmente abalada, mas as condições de saúde dela são tais que poderia passar por um interrogatório.

Caso seja condenada por falso testemunho, Paula O. ficaria sujeita a que tipo de pena?

O Código Penal prevê uma pena privativa de liberdade de até três anos (reclusão) ou uma pena pecuniária (multa). Mas na prática e nesse caso, na pior das hipóteses que ela seja condenada - apesar de ainda não estar nada certo - creio que receberia somente uma pena pecuniária e ainda condicional, por ela não ter antecedentes criminais, vinculada a um tempo probatório de dois anos. Isso seria realista se a investigação levar de fato à condenação de Paula O.

Como advogado o Sr. tem orientado Paula O. e a família a como se comportar futuramente, inclusive no contato com a imprensa?

Trabalhamos juntos e combinamos coordenar nossos passos frente ao público. Acho que faz sentido a família trabalhar junto com a pessoa que está defendendo a sua filha.

Qual o papel do namorado de Paula O, o suíço Marco T. no caso? Sua ausência desde que a imprensa começou a cobrir a história é objeto de muitas conjecturas?

Ainda não sei.

O Sr. já teve contato com ele?

Apenas uma vez.

Ele está envolvido diretamente no caso?

Até o momento não.

A matéria da "Weltwoche" afirma que a polícia vê como muito provável que Paula O. tenha cometido esses atos somente para ser indenizada através da Lei de vítimas. Os valores pagos seriam algo entre 50 e 100 mil francos. Qual o fundamento dessa afirmação?

R.M.: Isso não é uma afirmação que o "Weltwoche" tirou de alguma fonte, mas pura especulação. Eu posso claramente rejeitá-la. Em primeiro lugar, na Suíça nunca é possível receber uma indenização moral desse montante como a "Weltwoche" publicou. Talvez na teoria, mas na prática nunca foram pagas indenizações morais desse nível. Isso é simplesmente errado. Em segundo lugar, ele não levou em consideração que a Paula vem de uma família bem situada no Brasil, de renome e patrimônio. Ela própria tinha uma vida boa na Suíça. Ela não precisa desse dinheiro!

Existe de fato essa Lei de vítimas na Suíça? Alguém poderia receber indenizações morais desse valor?

Na teoria sim, mas na prática não.

Com toda a repercussão que teve na mídia e até no relacionamento entre a Suíça e o Brasil, como o Sr. vê o caso Paula O.?

O problema foi muito mais uma falha na comunicação entre os jornalistas e as pessoas envolvidas, como a família ou o consulado brasileiro. Nunca houve muita informação por parte do Ministério Público e assim os jornalistas tenderam a fazer afirmações ou interpretações muito ousadas, que permitiram pensar que o caso era mais importante do que o era. Eu penso que o caso não foi tão grave como transpareceu para o público. Se uma pessoa é atacada por três desconhecidos ou induz uma autoridade a um erro, isso é de relevância menor.

O advogado Roger Müller.
O advogado Roger Müller. (www.rms-law.ch)

As queixas de familiares de Paula O. e de diplomatas brasileiros de falta informação por parte das autoridades é fundada? A Polícia de Zurique levou três dias para fazer uma coletiva de imprensa e informar o público.

A polícia não têm obrigação nenhuma de informar. Existem os interesses da vítima a serem protegidos. Existe também uma investigação que precisa ser mantida sob sigilo. Eu creio que nada ocorreu de errado. O público parece pensar que o caso está para terminar, mas ainda estamos no princípio dessa investigação. Nessa fase é claro que nenhuma autoridade envolvida pode dar amplas informações, muito menos a polícia que está sendo chefiada pelo Ministério Público. Se cabe a alguém informar o publico, esse é o promotor ou a chefia do Ministério Público, mas com certeza não a polícia.

O passaporte de Paula O. está bloqueado. Quanto tempo essa medida fica em vigor?

Essa medida cautelar só pode ser aplicada enquanto o exige a situação. Do momento que o promotor do Ministério Público colher informações suficientes para saber como ocorreu verdadeiramente a história, ele deve cancelar essa medida. Isso pode ocorrer em breve.

Três possibilidades para o fim do caso

Questionado pela swissinfo, Rainer Angst, porta-voz da Procuradoria Geral de Zurique, confirmou as afirmações do advogado de defesa de Paula O. na questão da confissão. "Ela pode teoricamente negar as informações que deu durante o interrogatório policial, pois não havia a presença de um advogado", admite, mas lembra que existe o perigo também de contradições.

Sem dar informações sobre uma possível data para o primeiro interrogatório com o procurador Marcel Frei, o porta-voz explicou que vê três saídas prováveis para o caso da brasileira. "A primeira seria a formalização da queixa contra Paula O. e então teremos um julgamento. A outra seria o arquivamento do processo em caso de falta de provas ou outras questões e, finalmente, pronunciar uma pena pecuniária (multa)".

Swissinfo


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Oswald Grübel nomeado para dirigir o UBS

O maior banco suíço procura um novo diretor-executivo para sair da crise. Marcel Rohner demitiu-se e o conselho de administração nomeou em seu lugar Oswald Grübel, antigo chefe do Credit Suisse, seu maior concorrente.

Marcel Rohner pediu sua demissão, declarou o UBS na quinta-feira (25 de fevereiro) através de um comunicado de imprensa.

Oswald Grübel (esq.) substitui o executivo Marcel Rohner.
Legenda da foto: Oswald Grübel (esq.) substitui o executivo Marcel Rohner. (Keystone)

O conselho de administração nomeou como sucessor Oswald Grübel, "que dispõe de uma vasta experiência na recuperação de empresas", justificou o maior banco suíço.

"Oswald Grübel foi arquiteto de uma reforma frutífera na qual ele conseguiu restabelecer a confiança no banco, enquanto este atravessava uma fase de turbulência", revela o UBS. Uma competência útil para a instituição em tempos de grande crise.

Início da carreira no Deutsche Bank

Nascido em 1943 na Alemanha do leste e órfão da II. Guerra Mundial, Oswald Grübel iniciou sua carreira de banqueiro no Deutsche Bank em Mannheim, depois em Frankfurt.

Ele entrou para o Credit Suisse em 1970 através da sua filial de investimentos em Londres, a White Weld Securities, da qual acabou por assumir a direção em 1978.

Oswald Grübel galgou na hierarquia do grupo ocupando diversos postos de responsabilidade, notadamente no Credit Suisse First Boston (CSFB). Em 1991, ele assumiu um cargo no comitê executivo do Credit Suisse como responsável pelos mercados financeiros.

Oswald Grübel assumiu a divisão de banco privado em 1998, depois o Credit Suisse Financial Service. Após uma breve saída do grupo em 2001, ele tornou-se co-diretor e depois diretor-geral do Grupo Credit Suisse.

Quando o Credit Suisse registrou mais de três bilhões de francos de perdas anuais em 2002, o grupo o requisitou como co-executivo juntamente com John Marck. Depois ele assumiu solitariamente os comandos do grupo de 2004 a 2007, revertendo completamente a estratégia fortemente criticada de seu predecessor Lukas Mühlemann.

Oswald Grübel conseguiu no período colocar o Credit Suisse nos trilhos, tendo sido responsável pelos mais de 11 bilhões de francos de lucros em 2006. Porém a recuperação não ocorreu sem dor: foi necessário reestruturar através da supressão de milhares de postos de trabalho.

Reação positiva na bolsa

As mudanças na direção do UBS, com a chegada de Oswald Grübel na direção do grupo, provocou uma forte alta na bolsa. As ações do banco tiveram uma alta de 15%, passando para 11,60 francos.

A substituição foi saudada pelos investidores, que veem o banco passar por uma crise sem precedentes. Considerado como uma transferência de peso, a escolha do ex-chefe do Credit Suisse foi elogiada.

Vários analistas falam de uma escolha bastante judiciosa, alguns se expressando mesmo com adjetivos como "fantástica". Eles confiam na grande experiência de Oswald Grübel, que havia contribuído para recuperar o Credit Suisse a partir de 2003, após um ano de 2002 marcado por perdas de 3 bilhões de francos suíços.

Swissinfo

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Criacionistas persistem em negar Darwin

Para muita gente, Deus criou o mundo em seis dias, 4.400 anos de enviar seu filho Jesus Cristo. Para outros, é a mão invisível de Deus que dirige a seleção das espécies.

Duzentos anos depois de Darwin, os criacionistas estão presentes nas Américas, na Europa e na Suíça.

O Jardim do Eden, "como o verdadeiro". Disneyland? Não, no museu da criação em Petersburg, no estado de Kentucky, Estados Unidos.
Legenda da foto: O Jardim do Eden, "como o verdadeiro". Disneyland? Não, no museu da criação em Petersburg, no estado de Kentucky, Estados Unidos. (Robert Huber, Lookatonline)
Duzentos anos depois de Darwin, os criacionistas estão presentes nas Américas, na Europa e na Suíça.

No início, o próprio Charles Darwin era criacionista – ou pelo menos adepto do disign inteligente, como se diria atualmente. No preâmbulo da teoria da seleção natural, ele fala de um "grande selecionador" que, à maneira de horticultores ou de criadores, escolhem as melhores espécies para fazê-las prosperar.

Contudo, quanto mais ele avança em suas descobertas, menos ele encontra provas da existência desse grande selecionador. Em 1844, ele escreve a seu amigo Joseph Hooker: "estou quase convencido que as espécies não são imutáveis. É como confessar um assassinato."

Assassinato de Deus, que Darwin não ousa contar a seus próximos. "Quando temos uma esposa membro do Credo Unitarista, uma das seitas mais estritas da Inglaterra protestante, e que adoramos essa mulher, não são coisas de que se fala à noite, à mesa", resume André Langaney, geneticista, especialista da evolução e professor na Universidade de Genebra.




Ameaças sobre a Europa

« Esse combate contra a teoria da evolução emana mais frequentemente de extremistas religiosos próximos dos movimentos políticos de extrema direita. » Guy Lengagne, relator para o Conselho da Europa

Portanto, 150 anos depois da publicação da Origem das Espécies, muita gente se recusa a admitir o que é evidente para a ciência. Há alguns anos, as diferentes formas de criacionismo parecem inclusive voltar com mais força.

O fato preocupa o Conselho da Europa. Em junho de 2007, o deputado socialista francês Guy Lengagne, em nome da comissão da cultura, ciência e educação, fez um relatório denunciando em termos alarmistas as tentativas de infiltração das escolas do continente pelos meios criacionistas.

"O combate contra a teoria da evolução provém geralmente de extremistas religiosos próximos dos movimentos políticos de extrema direita", afirma o relatório, que interpreta o fato como "uma ameaça direta à democracia", que os defensores do criacionismo estrito "querem substituir pela teocracia."

Refutado inicialmente pela Assembléia Parlamentar, esse relatório foi aceito em segunda leitura. "Mas não quiseram elaborar uma regulamentação. Foi uma espécie de empate", explica Claire Clivaz, teóloga na Universidade de Lausanne.

Essa professora de Novo Testamento e literatura cristã e seus colegas decidiram organizar uma formação em seis aulas para dar aos professores argumentos para responder às teses criacionistas.

"Por vezes, temos reações de alunos que se insurgem contra as teorias de Darwin em nome da religião, mesmo se é mais raro do que na França", observa Claire Clivaz.

Deus como hipóteses

No entanto, a teóloga não coloca em questão a liberdade de crença, que na Suíça é garantida pela Constituição. Para ela, "o problema começa no momento em que se dá um peso político, institucional a teorias que pretendem competir com teorias científicas."

Também para André Langaney, a causa é clara: Darwin e a Gênese não falam da mesma coisa. A atitude religiosa é uma questão de fé, enquanto a postura científica é de dúvida. A fé não tem nada a ver com ciência, em que tudo deve ser colocado em questão.

Ele lembra uma anedota: quando em 1796, Pierre Simon de Laplace é o primeiro a fazer a hipóteses do nascimento do sistema solar a partir de uma nuvem de gás e de poeira em rotação, Napoleão acolhe bem o livro, mas diz ao sábio que no livro não se encontra traço de Deus. Laplace responde então: "Senhor, eu não preciso dessa hipótese."

"Eu o diria de outra maneira, acrescenta Langaney: Deus é uma hipótese cara, e não forçosamente científica, porque não temos a menor prova material de sua existência."


Questão de sentido

« O povo quer sábios, não cientistas. » André Langaney, geneticista

Isso nunca impediu os crentes de crerem. Mas por que então esse ressurgimento do criacionismo hoje?

Claire Clivaz considera, entre outras hipóteses, um efeito do que se chama de politicamente correto. "Estamos em uma época em que não se aceita mais os discursos da autoridade do estilo o professor disse, está certo", afirma ela. Portanto, se a evolução é apenas uma teoria, admite-se, para não vexar ninguém, que ela tem o mesmo valor de uma outra.

Para a teóloga, contudo, também poderia ser uma decorrência da impressão que os recursos do mundo chegam ao fim e da necessidade de questionar sobre o começo. Porque, se teve um começo, deve haver um sentido no fato que haverá um fim."

"As pessoas têm medo, elas são muito solitárias, assinala André Langaney, e as seitas, em particular as seitas criacionistas, lhes oferece um contexto seguro e laços afetos que elas não têm na vida cotidiana."

O homem, de fato, vive melhor com certezas do que com dúvidas. "O povo quer sábios, não quer cientistas", conclui o geneticista.

Fonte


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Até Você,Suiça - Governos gastam quase US$ 10 trilhões com a crise

Os pacotes de salvamento de bancos e investimentos em programas econômicos planejados ou implementados em 37 países já somam 11,324 trilhões de francos suíços (9,682 trilhões de dólares).

Esta foto da crise nos EUA venceu o prêmio Fotografia do Ano (World Press Photo) de 2008
Legenda da fotEsta foto da crise nos EUA venceu o prêmio Fotografia do Ano (World Press Photo) de 2008 (Keystone)

Um levantamento inédito do jornal suíço NZZ am Sonntag mostra que isso corresponde a uma carga de 1.665 francos (1.422 dólares) por habitante do Planeta e é 100% mais do que toda a ajuda ao desenvolvimento.

Para uma família suíça com quatro pessoas, isso já seria um osso duro de roer: "os 6.660 francos corresponde quase exatamente à renda média mensal. Um pai de família na Somália não conseguiria ganhar essa quantia em toda a sua vida", compara o semanário.

O jornal usa ainda outro exemplo para tentar ilustrar a dimensões inimagináveis das medidas de salvamento da economia: investimentos planejados ou implementados, créditos e garantias estatais.

Uma casa de US$ 1,2 milhão

"Se os recursos de todas as medidas fossem repartidos para a população suíça, cada um dos 7,5 milhões de habitantes do país poderia construir uma casa no valor de 1,4 milhão de francos (US$ 1,2 milhão)."

O jornal fez o cálculo com a ajuda de grandes bancos suíços e internacionais. Foram somadas as medidas tomadas ou anunciadas em 37 países mais 45 bilhões de francos da União Europeia (UE). Quarenta por cento dos custos recaem sobre os EUA, o epicentro da crise. Não há informações sobre pacotes de salvamento de países africanos.

O que mais impressiona na reportagem do NZZ am Sonntag é a seguinte comparação: "11,324 trilhões – isso são 100% mais do que os países industrializados gastam anualmente com a ajuda ao desenvolvimento. E são 18% do Produto Social Bruto global de 2007."

Esses cálculos, admite o jornal, são conservadores. O custo real dos pacotes pode ser ainda mais elevado. O governo dos EUA apresentou na semana passada um plano de salvamento dos bancos de US$ 2 trilhões, além do pacote conjuntural de US$ 838 bilhões aprovado pelo Congresso de bilhões de dólares injetados em bancos capengas no ano passado.

Segundo uma estimativa feita pelo jornal New York Times, os planos de salvamento dos bancos dos EUA, em caso extremo, poderão custar US$ 8,8 trilhões, portanto, o triplo dos valores anunciados oficialmente até agora.

E a China lançou um pacote de US$ 586 bilhões para a economia. Diante disso, os pacotes europeus são relativamente modestos, à exceção da Alemanha que já deu ajuda e garantias de US$ 612 bilhões aos bancos.

Ajuda a fundo perdido?

O caso alemão é um dos que levantam dúvidas se o dinheiro usado para salvar os bancos um dia voltará aos cofres públicos. Por isso, o país já discute abertamente um eventual controle estatal do banco Hypo Real Estate, que tem um valor de mercado de apenas 280 milhões de euros, mas já recebeu ajudas e garantias no valor de 102 bilhões de euros desde outubro passado.

Isso é mais do que cinco vezes o valor dos planos econômicos lançados pelos países sulamericanos em decorrência da crise: no valor total de 50 bilhões de francos (US$ 42,6 bilhões). O Brasil até agora renunciou a um pacote emergencial.

Estratégias divergem

As estratégias de combate à crise variam de país para país. Enquanto a França, por exemplo, injeta bilhões de euros na indústria automobilística, a Inglaterra tenta aquecer a demanda interna e baixa o imposto de valor agregado de 17,5% para 15%.

A Itália anunciou no ano passado um pacote conjuntural de 120 bilhões de francos (agora reduzido a 100 bilhões), mas a metade desses recursos vem de programas de fomento da UE.

Entre os 37 países analisados, a Suíça mobiliza um volume de recursos relativamente pequeno – 46 bilhões de francos para o salvamento de bancos e 1 bilhão para investimentos na economia.

A ajuda bancária também causa polêmica entre os helvéticos. Tanto o Partido Socialista quanto a União Democrática de Centro (UDC, sigla nacionalista-conservadora) defendem mais controle estatal sobre o UBS, maior banco do país, depois que este foi socorrido com dinheiro dos contribuintes.

Portugal comprometeu ainda menos dinheiro público do que a Suíça para combater a crise. São 36 bilhões de francos para salvar instituições financeiras e 3 bilhões (2,2 bilhões de euros) dar um empurrão à economia e proteger as empresas nacionais.

Dados do NZZ am Sonntag)

Fonte

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Duro golpe contra o sigilo bancário

O UBS, o maior banco da Suíça, irá pagar 780 milhões de dólares à justiça americana por evasão fiscal e deve divulgar as identidades dos clientes aos quais ajudou a sonegar.

O sonho americano se transformou em pesadelo para o UBS.
Legenda da foto: O sonho americano se transformou em pesadelo para o UBS. (Reuters)

No acordo, o UBS admite "ter ajudado contribuintes americanos a esconder contas bancárias" da Receita federal, destaca o departamento de Justiça dos EUA. Os protestos são grandes no país devido a quebra do sigilo bancário.

Apesar do temor de que o sigilo bancário esteja com seus dias contados, o governo helvético relativizou a dimensão do acordo concluído entre a UBS e a justiça americana.

Os problemas econômicos e jurídicos do UBS nos Estados Unidos não terminaram. Na noite de quinta-feira, o ministério americano da Justiça anunciou que havia apresentado uma queixa contra o UBS em Miami, na Flórida.

Dessa vez são 52 mil clientes americanos de contas que estão sob investigação da justiça e das autoridades fiscais americanas. A soma dos seus bens depositados seria algo entre 14,8 bilhões de dólares de ativos (cerca de 17,35 bilhões de francos).

A novidade chega no momento em que o mercado financeiro e o segredo bancário suíços estão sob ameaça de problemas jurídicos do maior banco suíço nos Estados Unidos, depois do anúncio na quarta-feira de um acordo entre o UBS e as autoridades americanas.

Na realidade, já há vários meses o UBS estava na mira da justiça americana. Tudo foi revelado por um ex-gerente de fortunas e o grande banco foi obrigado a fazer o seu "mea culpa" frente a uma corte na Flórida: sim, o UBS incitou de fato alguns clientes a fraudar o fisco dos Estados Unidos.

Desde essa confissão, o banco estava à espera de um acordo e sanções. Ela finalmente entrou em acordo com a justiça, escapando dessa forma ao risco de ser retirada sua autorização de operar nos Estados Unidos.

Supressão do segrego bancário

O acordo, que possibilita ao UBS retardar de 18 meses qualquer ação judicial contra o banco, prevê um pagamento à justiça americana uma multa de 780 milhões de dólares (916 milhões de francos).

Essa soma é dividida, de fato, em duas partes. A primeira (380 milhões de dólares) representa a restituição dos lucros ligados à manutenção das atividades transfronteriças nos Estados Unidos. A segunda (400 milhões) representa o imposto antecipado assim como diversas penalidades, juros e retenções ligadas às "estruturas fraudulentas, fictícias e de fachada", explica o UBS no seu comunicado.

O aspecto mais importante do acordo não é financeiro. De fato, a Autoridade suíça Federal de Supervisão dos Mercados Financeiros (FINMA) ordenou a entrega imediata de nomes de aproximadamente 300 clientes do UBS à justiça americana.

No seu comunicado, as autoridades de vigilância indicam que se trata de um "número limitado de dados" sem determinar o número. A FINMA justificou sua decisão pelo fato de que esta permite "antecipar-se através de um acordo as conseqüências dramáticas de uma ação penal para o UBS e garantir a estabilidade do sistema financeiro suíço.".

Hans-Rudolf Merz relativiza

Porém tal decisão poderá constituir uma primeira etapa no desmantelamento do famoso segredo bancário suíço. Para Hans-Rudolf Merz, não é necessário, todavia, dramatizar a situação.

Diante da mídia, o ministro suíço das Finanças explicou na quinta-feira (19.02) que o segredo bancário visava proteger a esfera privada dos clientes, mas de forma nenhuma a cobrir fraudes fiscais. Ora, no caso do UBS tratava-se realmente de fraude fiscal. Porém a autoridade ressaltou que" o segredo bancário está sendo mantido." A legislação suíça faz a diferença entre fraude fiscal (intencional, através de documentos falsificados, etc, passível de prisão) e evasão fiscal (passível de multa).

Além disso, o ministro afirmou que a pressão colocada pela justiça americana nesse dossiê não iria prejudicar as relações entre a Suíça e os Estados Unidos. "Isso não deve deteriorar nossas relações; esse caso é realmente problemático, mas particular", assegurou.

Por outro lado, Hans-Rudolf Merz se felicitou do acordo. Sem ele, o UBS poderia ter sua existência ameaçada, o que poderia ter tido graves conseqüências para o conjunto da economia suíça.

Chuva de críticas

As propostas tranquilizadoras de Hans-Rudolf Merz não convenceram, porém, todo o mundo. O mundo político - seja à direita como à esquerda - critica o governo e a FINMA por ter cedido muito rapidamente às pressões americanas.

Assim, para o presidente do Partido Social-Democrata, Christian Levrat, essas pressões são "inaceitáveis". Para o porta-voz do Partido Radical Democrata (PRD, na sigla em francês), Damien Cottier, "a força se sobrepôs ao direito".

Mas a esquerda e a direita divergem sobre a questão do segredo bancário. Se a esquerda estima geralmente que é tempo de rever essa prática, a direita pretende por revanche a defendê-la a todo custo.

A União Democrática do Centro (UDC, nacionalista, conservador) se mostrou particularmente virulenta. O partido mais uma vez lembrou sua proposição de incluir o segredo bancário na Constituição Federal. Ele igualmente indicou que uma queixa penal poderá ser apresentada contra aqueles que revelaram os nomes dos clientes do UBS.

Os meios econômicos e bancários também denunciam e as pressões exercidas pelos Estados Unidos. A crítica mais severa é de Carlo Lombardini, um especialista de Genebra em direito bancário, que qualificou o acordo de "desastre total".

Olivier Pauchard

Fonte: http://www.swissinfo.ch/por/index.html

O caso de Paula Oliveira na Suiça - Esclarecimento da swissinfo

Esclarecimento da swissinfo

Quem acompanha o noticiário atual, soube que swissinfo foi citada e criticada várias vezes no artigo publicado em 19 de fevereiro pela revista semanal suíça “Weltwoche”, de autoria do jornalista Alex Baur.

O artigo trouxe ao conhecimento várias informações confidenciais sobre o testemunho de Paula O. que foram, em parte, confirmadas pelo Ministério Público. Este abriu inquérito contra desconhecido por quebra de sigilo oficial.

Já a swissinfo responde às críticas através de um comunicado à imprensa.

swissinfo.ch: esclarecimento sobre o artigo publicado na Weltwoche

Um artigo, publicado na atual edição da revista Weltwoche, critica fortemente o noticiário produzido pela redação em português sobre o caso de Paula O. swissinfo rejeita as críticas e apresenta pontos pertinentes.

Desde o início a redação em português da swissinfo se esforçou para escrever sobre essa triste história da forma mais equilibrada possível e próxima aos fatos. Ela informou sobre a indignação popular no Brasil e na Suíça, mas não a provocou. Depois ela acompanhou com rapidez outros desenvolvimentos inesperados e comunicou-os aos seus leitores.

Nos artigos da swissinfo todos os lados foram entrevistados ou citados: a família, o governo brasileiro, a Polícia da Cidade de Zurique (com traduções integrais dos comunicados oficiais de imprensa), ONGs e vários representantes do partido União Democrática do Centro (SVP, na sigla em alemão) como, por exemplo, Alain Hauert (porta-voz do partido) ou os deputadosfederais Oskar Freysinger e Yvan Perrin. Disso resulta uma grande quantidade de citações.

A redação em português publica seus artigos no endereço swissinfo.ch como também mantém um blog, cujas contribuições não estão obrigadas a atender a mesma objetividade. A “Weltwoche” confunde muitas vezes artigos, que foram integrados no noticiário, com textos do blog. O artigo declarado como suprimido nunca desapareceu da página.

A indicação sobre os motivos dos corvos (encontrados nos cartazes do partido SVP na última campanha de votação), criticada pela “Weltwoche”, está em um blog do jornal O Globo e foi citada em muitas mídias internacionais. A menção à campanha ocorreu apenas uma vez durante uma entrevista com a Sra. Angst, secretária-executiva da Comissão Federal contra o Racismo.

Para a swissinfo é difícil compreender por que a “Weltwoche” precisamente ataca a swissinfo neste caso, que primeiramente confundiu e ocupou a mídia suíça. Antes da publicação, swissinfo só foi contatada pouco antes do fechamento de edição e durante a ausência do redator-chefe da swissinfo.

Comentários (2) Publicado em Cotidiano por Alexander Thoele

19.02.2009

Ministério Público abre novo processo

O Ministério Público de Zurique anunciou, também na quinta-feira (19) a instauração de um processo contra “desconhecido” por vazamento de informações confidenciais. De fato, a revista semanal suíça Die Weltwoche, publicou, na edição que saiu hoje, um artigo citando fontes próximas da polícia, afirmando que a brasileira Paula O. teria assinado uma confissão quando ainda estava hospitalizada.

O Ministério Público admite, em comunicado divulgado quinta-feira, que parte das informações contidas no artigo são corretas. Com a abertura do processo, o MP quer saber quem forneceu as informações confidenciais à revista.


19.02.2009

Relações entre Suíça e Brasil não serão abaladas

O presidente suíço e ministro das Finanças, Hans-Rudolf Merz, disse nesta quinta-feira (19) que o caso da brasileira indiciada pelo Ministério Público de Zurique por falso testemunho “é um caso menor, que esquentou demasiadamente os ânimos.” Ele comentou o caso em encontro com a imprensa estrangeira. O encontro foi relatado pela agência de notícias espanhola EFE.

“Houve muito barulho na sociedade, porém isso não terá qualquer efeito a nível de Estados”, descartando que o assunto possa deteriorar as relações entre a Suíça e o Brasil.

“Agora teremos um processo penal através do qual se saberá a verdade e não devemos dar mais transcendência a esse assunto”, concluiu o presidente suíço.

Comentários (1) Publicado em Cotidino por Claudinê Gonçalves


19.02.2009

Paula teria confessado o crime, diz revista suíça

Várias mídias na Suíça e no Brasil já estão anunciando a matéria de destaque da “Weltwoche”, conhecida revista semanal helvética e que estará nas bancas do país a partir de amanhã (no site ela acaba de ser publicada). Nela, o seu autor afirma que Paula já teria dado um testemunho claro na última sexta-feira (14 de fevereiro) e que poderia esclarecer o crime. Ela teria sido interrogada por uma agente policial e entrado em contradição. Ao ser informada sobre o conteúdo da análise dos peritos de medicina legal, no qual descobre que não estava grávida, a brasileira teria chorado bastante. Depois feito a confissão e até assinado um protocolo.

Paula não justificou seus atos, mas disse que só conhecia a União Democrática do Centro (SVP, na sigla em alemão, a mesma que entalhara no seu corpo em várias partes) de cartazes. Não existiriam co-autores. Os cortes no corpo teriam sido feitos no banheiro em Stettbach com uma faca comprada na Ikea, um grande atacadista de móveis e utensílios domésticos, guardada na bolsa na manhã do dia em que ocorreu o suposto ataque. O autor do artigo também ressalta que o ato foi premeditado. “O ato não foi espontâneo, mas sim planejado com horas, senão dias, de antecedência”.

Na revista, o jornalista também cita fontes “próximas” da polícia para afirmar que as autoridades teriam uma suposição para explicar as ações da brasileira. Paula teria interesse em ser reconhecida como “vítima” de um crime, o que possibilitaria a ela receber uma indenização. As leis suíças prevêem entre 50 mil e 100 mil francos. “Como advogada, Paula O. deveria conhecer essa peculiaridade das leis suíças”, declara o autor.

Comentários (5) Publicado em Cotidiano por Alexander Thoele

18.02.2009

Confissão aceleraria retorno de Paula ao Brasil, diz procurador

O jornal Tagesanzeiger.ch acaba de publicar informações adicionais à nota divulgada pela Procuradoria Pública de Zurique. Segundo o diário, o procurador público encarregado do caso, Marcel Frei, teria dito que “a mulher continua sendo interrogada. Enquanto esses interrogatórios não forem concluídos, é mantido o bloqueio de seu passaporte e de seus papéis”.

O retorno de Paula O. ao Brasil poderia ser acelerado se ela admitisse que inventou o suposto ataque neonazista. “Se ela me dissesse isso na presença de um advogado, então avançaríamos um enorme passo”, disse Frei ao Tagesanzeiger.ch. Ele ressaltou, porém, que até agora não recebeu uma confissão dessas.

18.02.2009

Paula O. está nua!

Abaixo: E-mail de Paula e ultrassom falso publicados no 20min

Nos últimos dias tenho enfrentado o desafio de cobrir de forma neutra e ponderada a história de Paula Oliveira. A primeira constatação é que existem duas abordagens completamente diferentes do assunto. Elas variam entre o silêncio conspiratório e cacofonia informativa. Isso vale para os dois países.

No Brasil esmiuça-se a vida de Paula Oliveira e revelam-se até seus mais íntimos detalhes, sejam e-mails pessoais, relatos de doenças recentes ou fotos familiares. Parentes e amigos são entrevistados e dão, sem pudor, sua ficha pessoal. Os jornalistas presentes em Zurique sitiam residências e hospitais, obrigando familiares e próximos a chamar a polícia. Afirmações são tiradas do seu contexto e reinterpretadas, fazendo com que a notícia fique do avesso. Retratações são feitas, mas a metralhadora continua a atirar em todas as direções no estilo “uma das balas vai atingir a vítima certa”.

“O Itamaraty nunca sugeriu uma fuga de Paula para o Brasil. Essa foi uma matéria infundada em equívocos”, protestou energicamente Acir Madeira contra uma nota publicada há poucos dias na imprensa tupiniquim e depois rapidamente desmentida pelo próprio jornalista. “Ele ainda nos ligou para se desculpar, mas a retratação continuou pouco clara”.

Chamado especialmente à Suíça para colocar um pouco de ordem no trabalho de imprensa do consulado, Madeira ressaltou que as relações bilaterais entre a Suíça e o Brasil nunca foram afetadas, mas admitiu que houve no início problemas entre as autoridades brasileiras e helvéticas. “A comunicação não foi adequada no início, mas agora está funcionando sem problemas”, assegurou.

Quanto às supostas críticas feitas à Suíça pelo ministro brasileiro das Relações Exteriores Celso Amorim , o diplomata deu sua interpretação dos fatos. “O chanceler sempre disse que o governo iria esperar a conclusão das investigações. No início é que ele disse que o caso dava uma aparência de ser xenofobia, mas frente aos fatos apresentados até você teria feito o mesmo.”

Na Suíça a situação é mais complicada: a política oficial de “omertà” das autoridades leva os jornalistas à loucura. Ao ligar para o hospital e perguntar se Paula Oliveira receberia alta, a informação obtida foi de que a polícia zuriquense havia centralizado as informações. Telefonei para lá e a resposta: “Nada a declarar”. Na noite de ontem (17.02) ela retornou à casa, algo que foi amplamente noticiado pela imprensa brasileira. Hoje a polícia apenas respondeu que a informação estava correta.

Talvez isso explique porque a imprensa helvética sirva-se abundantemente do noticiário brasileiro, inclusive com ajuda de intérpretes, para traduzir textos e áudios. Qualquer nova notícia é espelhada quase simultaneamente nos jornais e sites da Suíça.

Hoje o jornal gratuito “20min” reproduziu com detalhes a matéria da Época sobre as falsas imagens de ultrassom enviadas por Paula a amigos e incluiu até a reprodução de um e-mail pessoal dela. Já o “Tagesanzeiger” chegou a anunciar em letras garrafais que “Paula já está prestes a partir do país” segundo uma informação que havia sido publicada em um jornal brasileiro. Obviamente o comunicado de hoje da Procuradoria Pública de Zurique desmentiu tudo.

O jornal populista “Blick” já apela para palavras fortes. “Paula O.: expulse-a!” é o título da primeira matéria do site. Eles revelam que dois grupos foram criados na rede social Facebook para pedir que ela seja ejetada do país. Uma das comunidades, intitulada “Expulsão para Paula Oliveira” (Ausschaffung für Paula Oliveira), já tem 1.694 membros. Sua exigência: “Quem inventa essas histórias para prejudicar partidos suíços e o país deve ser expulso!”. Outro grupo faz as mesmas exigências.

Vocês podem ver que a brasileira ainda estará no foco da mídias durante os próximos dias.

Cônsul diz que relações Brasil-Suíça não foram prejudicadas

Em entrevista ao portal suíço 20min.ch, o mais lido da Suíça, a cônsul-geral do Brasil em Zurique, Vitória Cleaver, justificou as críticas que fez à política de informação da polícia suíça e negou que tenha agido de forma precipitada no caso da brasileira Paula O..

“O caso causou muito alvoroço no Brasil. As fotos com os cortes na barriga e nas pernas eram preocupantes. Numa situação dessas, é natural que se aja e peça uma investigação imediata das circunstâncias”, disse.

A repórter Annette Hirschberg replicou então que a crítica de Cleaver deu a impressão de que a polícia não agia corretamente. ”Isso não é verdade. Só critiquei na quinta-feira da semana passada o fato de não ter sido informada em todos os detalhes. As primeiras respostas que recebi ao meu pedido de informação eram mínimas. Pedi mais detalhes, mas só fui informada exaustivamente sobre o caso no dia seguinte”, explicou Cleaver. (more…)

Fonte: http://coisasdasuica.swissinfo.ch/