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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Um sonho que não morrerá

O significado da eleição; um trabalho a ser feito.

No dia 4 de Novembro de 2008, eu entrei em um avião para Memphis, pouco antes dos locais de votação serem fechados no leste. Ao sair do avião, perguntei a primeira pessoa que vi – um passageiro afro americano que segurava uma mala em sua mão – “você sabe quem venceu as eleições?” Ele, então, começou a me dar detalhadamente os resultados das eleições nos colégios eleitorais e a dizer em quais estados Barack Obama ainda precisaria confirmar sua vitória. Eu fiquei assustado com o quanto essa eleição era importante para um povo que por tanto tempo esperou para se ver livre, e que passou mais tempo oprimido do que liberto pela democracia.

No dia seguinte, eu fiz um tour pelo museu nacional de direitos civis, construído ao lado do hotel onde Martin Luther King Jr. foi assassinado. Por muitas vezes eu revisitei os cenários que conhecia tão bem, vindo de uma igreja do sul. Os corajosos estudantes universitários de Greensboro, na Carolina do Norte, que estavam em uma lanchonete quando garotos brancos começaram a jogar pontas de cigarros em seus cabelos, mostarda e ketchup em seu rosto e, então, os chutaram para fora, enquanto policiais brancos olhavam, rindo. As terríveis cenas de crianças leves ao vento em Birmingham, lançadas longe por mangueiras com jatos de água; ou o incêndio no ônibus Caminho da liberdade, no Alabama e os cadáveres não enterrados no Mississipi.

Olhando para trás, é inimaginável pensar que essas atrocidades eram cometidas contra pessoas que estavam buscando seus direitos básicos de dignidade: direito ao voto, a comer em restaurantes, se hospedar em hotéis e se matricular em faculdades. (duzentos homens da guarda nacional escoltavam James Meredith para a primeira classe, enquanto pessoas morriam nas revoltas que aconteciam nas cidades).

Do lado de fora do museu, as palavras do discurso final de King “eu estive no topo da montanha” estavam gravadas; palavras que ficaram presas em minha garganta naquele dia de sol, horas depois que Obama foi eleito: “Eu posso não ir lá com vocês, mas quero que saibam que hoje nós, como povo, entraremos na terra prometida”. No dia seguinte àquele discurso, King estava morto sobre uma poça de sangue, no lugar onde eu me encontrava.

Em nenhum aspecto eu ignoro as diferenças políticas entre Obama e a maioria dos evangélicos. Entretanto, ao menos poderíamos refletir e nos arrepender por termos compartilhado o pecado do racismo nessa nação, desde sua fundação? Se passaram 150 anos, até que os Batistas do Sul pedissem perdão por seu apoio à escravidão; A universidade Bob Jones só reconheceu há três meses seu erro ao barrar estudantes negros até 1971. A simples palavra “desculpa” – “nós falhamos na forma pela qual representamos nosso Senhor e na maneira pela qual não amamos nosso próximo como a nós mesmos” – se aplica a muitos de nós, a muitos evangélicos que se opõem à causa dos direitos civis. Será que agora poderemos responder ao chamado de um líder para o respeito racial e reconciliação?

Durante a campanha, eu recebi terríveis emails que falavam que Obama era um filho da África (um continente negro e sombrio, onde há matanças, adoração a demônios e onde a violência quase funciona como regra); um filho do Islã (uma religião que se baseia em total submissão a um deus de força, que vinga os infiéis); e um fraudulento cuja língua está inflamada com fogo e com as chamas do inferno. Até onde chegaremos, afinal?

Duas semanas após as eleições eu viajei para a Índia, onde me encontrei com líderes cristãos que têm trabalhado para mudar o institucional quadro de discriminação que vige naquele país, o sistema de castas. Um colega me disse: “vocês americanos estão celebrando a eleição de um presidente negro depois de 250 anos; nós estamos esperando a libertação desse sistema de castas há 4000”. A rede de libertação dos Dalits trabalha por 160 milhões de Dalits, conhecidos nominalmente como os intocáveis. Embora nominalmente hindus, eles não são autorizados a entrar em seus templos. Por isso, recentemente muitos têm se tornado muçulmanos, budistas ou cristãos. Logo acima deles estão os Other Backward Castes, que abarca mais da metade da população da Índia: 500 milhões de pessoas. Alguns ativistas que vêm deste sistema vêem o hinduísmo como um modelo opressor de estruturação social, designado a mantê-los em seus “devidos lugares”. Evidentemente, qualquer sinal de agitação provoca reação dos fundamentalistas que desejam manter as coisas do jeito que estão.

Joseph D’Souza, presidente do conselho cristão para toda a Índia, disse: “Missionários mais antigos direcionaram seus esforços para os Brahmins, uma casta superior, esperando que isso trouxesse conseqüências sobre as castas inferiores. Não aconteceu. Agora estamos trabalhando da base”. Da forma como ele descreveu as coisas na Índia, eu não podia ajudar, senão pensando em algo similar em meu país. Alguns evangélicos estão balançando suas mãos por causa da perda de acesso aos corredores do poder. Talvez seja nossa hora de, como na Índia, começarmos a trabalhar de baixo para cima.

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(Traduzido por Daniel Leite Guanaes)

Cristianismo Hoje

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